Você conhece alguém com hipotireoidismo? Aposto que sim. Se não conhece, basta perguntar pra suas amigas pois estatisticamente 1 mulher a cada 5 é diagnosticada com hipotireoidismo hoje em dia.

Não que isso seja uma doença predominantemente das mulheres, mas como elas frequentam médicos (ginecologistas no mínimo) com mais frequência, estão mais susceptíveis ao diagnóstico.

Mas o que é hipotireoidismo?

Todos possuímos uma glândula chamada tireoide que se situa no pescoço logo abaixo do queixo. Ela produz o hormônio tireoidiano, também chamado de tiroxina ou T4, que resumidamente regula o “rítmo metabólico” do nosso corpo e, além de tumores, doenças auto-imunes e inflamações, pode apresentar basicamente dois quadros patológicos:

  • Hipertireoidismo (mais raro devido ao que vou explicar nesse artigo): Quando o hormônio tireoidiano é produzido em excesso, causando um estado “acelerado” do corpo que causam sintomas como diarreia, insônia, agitação, falta de concentração, taquicardia, perda de peso e por aí vai. Basicamente tudo funciona em excesso no nosso corpo, “desgastando a máquina” a longo prazo.
  • Hipotireoidismo (mais comum pelo mesmo fato que explicarei em breve): Quando o hormônio produzido pela tireoide é produzido de forma insuficiente, “desacelerando” o nosso corpo e causando sintomas como prisão de ventre, sonolência, letargia, depressão, aumento de peso e etc. Basicamente tudo funciona mais devagar, também causando danos a longo prazo.

E vamos combinar, os sintomas de Hipotireoidismo são bem comuns, não é mesmo? Mas seria sempre culpa da tireoide? Certamente que não. A própria depressão, por si só, pode causar todos os outros sintomas. Bem como prisão de ventre, stress, alimentação inadequada e muitas outras coisas, podem causar os demais sintomas e inclusive afetar a produção do hormônio tireoidiano.

Ou seja, não dá pra diagnosticar alguém apenas com avaliação clínica pois diversos fatores podem causar seus sintomas. Mas felizmente há dois exames de sangue simples que mostram os valores de TSH (hormônio estimulante da tireoide) e T4 no corpo.

  • O TSH é um hormônio produzido pela hipófise (glândula situada na nossa cabeça) responsável por estimular a tireoide a produzir o T4.
  • T4 é o principal hormônio produzido pela tireoide, sob o comando e controle da hipófise.

Ou seja, se o exame de sangue apresentar elevado valor de TSH, significa que a hipófise está demandando mais T4 do que está sendo produzido. E se juntar isso a um valor baixo de T4, significa que a tireoide não está produzindo nem a quantidade mínima necessária.

Se você levar um exame desse a um médico, o diagnóstico será de hipotireoidismo, e de fato é. Seu corpo está demandando mais T4 e sua tireoide não está respondendo adequadamente. E normalmente a proposta é simplesmente remediar, repondo o hormônio T4 com uma versão da tiroxina sintética (a levotiroxina) em comprimidos.

O problema é que este é um caminho sem volta, que torna o paciente dependente deste medicamento pro resto da vida. Ou seja, não é uma solução, é um tratamento paliativo e nem sempre necessário.

Veja bem, a hipófise controla sua tireoide 24h por dia, baixando nosso metabolismo durante a noite e aumentando durante o dia. Bem como regulando os níveis de T4 quando nos tornamos mais ativos ou sedentários, quando estamos precisando de energia ou quando estamos tristes e precisamos nos recolher e descansar. Tomando um hormônio via oral JAMAIS seremos capazes de fazer esse ajuste fino conforme as necessidade e ciclos das nossas vidas.

E pior, o que acontece na maioria das vezes é que ao perceber essa dose maior de T4 no corpo, a hipófise suprime a produção de TSH pra suprimir a produção de T4 pela tireoide, afinal, a hipófise não sabe que estamos tomando comprimidos, tudo que ela sabe é que a dose do T4 está acima da que nosso corpo deseja. Conclusão? A tireoide passa a produzir menos T4, levando o paciente a níveis baixos de T4 novamente, e ao visitar o endocrinologista só há uma solução: aumentar a dosagem do hormônio artificial.

Percebeu porquê causa dependência? Esse ciclo acontece até a tireoide ser completamente suprimida, desligada e nos tornarmos 100% dependente do T4 artificial e perdemos completamente o ajuste fino, nossos ciclos e capacidade de nos adaptarmos às mudanças de idade, humor, stress, peso e etc. E toda vez que algo desse tipo mudar, digamos por exemplo ao começar a praticar exercícios físicos, nosso corpo terá dificuldade pra prosseguir, pois irá demandar mais ou menos T4 e não terá a resposta necessária, até que percebamos os problemas pra então visitarmos o endocrinologista e ajustar a dose.

Mas o que causa o hipotireoidismo?

Diversos fatores podem causar uma baixa da função tireoidiana, incluindo tumores, doenças auto-imunes, stress mental ou fisiológico, outros hormônios incluindo anticoncepcionais, infecções e por aí vai. Mas nos casos onde a pessoa é saudável e não possui tumor ou qualquer outro problema crônico na tireoide na maioria dos casos é simplesmente falta de IODO.

O iodo é um elemento essencial para a tireoide. Sem iodo a hipófise poderia descer da cabeça pro pescoço pra chicotear a tireoide que ela seria incapaz de produzir a tiroxina.

O problema é que apesar do iodo ser um elemento relativamente abundante na natureza e essencial pra maioria dos seres vivos, hoje em dia ele existe em pouquíssimas quantidades nos nossos alimentos, sejam de origem animal ou vegetal.

A alguns séculos o iodo era abundante em nossos solos, vegetais e animais pois afinal de contas ao morrerem, eles voltavam para o solo. No entanto, com o aumento da população mundial e o desenvolvimento da agricultura, tudo que é retirado do solo pelas plantas, é enviado, em forma de alimento, pras grandes cidades. Isso vem deixando o solo cada vez mais “pobre” em nutrientes, o que faz necessário a adição de adubo para manter a produção.

Mas veja bem, os adubos são produzidos para fornecer o mínimo necessário pras plantas crescerem, não pra elas crescerem ricas e saudáveis pois isso aumentaria muito o custo de produção.

Faça você mesmo uma rápida busca no Google e pesquise a composição dos adubos. Se encontrar algum que possua IODO, me avise nos comentários, mas eu já te digo que é perda de tempo.

A maioria dos adubos químicos são conhecidos como NPK que é uma abreviação para Nitrogênio, Fósforo e Potássio, que são os principais elementos necessários pras raízes das plantas. Alguns até possuem outros nutrientes como Boro, Magnésio, Ferro, Molibdênio e etc, mas em baixíssima quantidade. Encontrei um que dizia ter 0,005% em sua composição o que é quase impossível até de se comprovar. E nenhum que encontrei, possuía iodo.

Os adubos orgânicos, apesar de (teoricamente) melhores não são muito diferentes afinal o esterco vem de animais que também comem em pastos pobres de nutrientes, e o mesmo acontece com os produzidos por compostagem afinal, o material orgânico usado ali também está “pobre”.

Mas pra onde foi todo o iodo? Pros oceanos junto com boa parte de todos os outros nutrientes, mas vou me ater ao iodo que é a questão aqui. Os mares ainda são o único lugar onde o iodo é abundante e por isso essa patologia acomete menos pessoas nas regiões litorâneas e por essa razão o sal grosso marinho é mais saudável e é tão recomendada a ingestão de frutos do mar.

Um artigo científico publicado pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos em 2004 divulgou que entre os anos de 1950 e 1999, dentre os vegetais mais comuns na nossa dieta, houve uma queda significativa de diversos nutrientes. Proteínas reduziram 6%, vitamina C reduziu em 15% e a vitamina B2 chegou a ser reduzida em 38%! E há vários outros artigos semelhantes: Artigo 1, Artigo 2, Artigo 3 e Artigo 4) .

Isso é um problema tão sério, que há muitos anos que no mundo todo, existem leis que obrigam a adição de iodo ao sal de cozinha, incluindo o Brasil. Ou seja, todo sal que você comprar terá adição de iodo.

Só que cada país tem uma legislação com relação à quantidade de iodo obrigatória no sal e no caso do Brasil o mínimo obrigatório é de 10 miligramas de iodo metaloide por quilograma de sal. Só que tem um problema nisso tudo, a matemática não bate.

Veja bem, o iodo metaloide usado pra se adicionar iodo ao sal, é o iodato de potássio. Ou seja, parte desses 10 miligramas adicionados não são de iodo, são de potássio. No caso (vou te poupar dos cálculos químicos) 26% da massa do iodato de potássio equivale ao potássio e 74% ao iodo, ou seja, dos 10 miligramas de iodato de potássio contidos em 1 quilograma de sal, apenas 7 miligramas são efetivamente de iodo.

Agora, vamos aos valores diários recomendados de iodo:

Idade Quantidade de iodo mínima diária
0 a 6 meses 110 mcg
7 a 12 meses 130 mcg
1 a 8 anos 90 mcg
9 a 13 anos 120 mcg
14 anos ou mais 150 mcg
Mulheres grávidas 220 mcg
Mulheres que amamentam 290 mcg

Isso quer dizer que uma mulher que esteja amamentando precisa de NO MÍNIMO 290 microgramas de iodo por dia. Parece pouco, mas vamos aos cálculos:

Novamente vou te poupar dos cálculos matemáticos, mas considerando que, de acordo com a lei brasileira, 1 quilograma de sal deve possuir 7 miligramas de iodo e que uma mãe precisa de 290 microgramas de iodo por dia durante o período de amamentação do seu filho, isso significa que essa mulher teria que ingerir 41 gramas de sal POR DIA! Isso equivale a 41 saquinhos de sal desses de restaurante!

E além de eu duvidar que uma pessoa consiga comer tanto sal em um dia sem passar mal, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde) a quantidade máxima de sal que uma pessoa deve ingerir por dia dever ser MENOR que 5 gramas! Menos de 5 saquinhos de sal por dia sem considerar que já existe sal em alimentos e bebidas industrializadas bem como na massa, pão, bolo e inclusive doces de padaria.

Resumindo, tem iodo no sal, mas pra ingerir a quantidade de iodo necessária uma lactante precisaria ingerir 4x mais sal do que o recomendado!

Mas claro, ainda há algum iodo nos alimentos, não houvesse já estaríamos todos com hipotireoidismo severo. Mas certamente não há o suficiente pra suprir esse déficit e certamente haverá cada vez menos, visto que o iodo não é reposto de forma mínima nem no nosso sal, quem dirá ao adubo.

E lembra que eu disse no começo que 1 em cada 5 mulheres é diagnosticada com hipotireoidismo? Pois é, só que veja bem, pra que alguém seja diagnosticado com hipotireoidismo os valores de T4 e TSH no sangue devem estar fora da margem “normal”. O problema é que essas margens não levam em consideração que cada pessoa é diferente. Uns são naturalmente mais ativos, outros menos. Uns são mais altos e mais atletas e precisam de doses maiores de tiroxina do que uma pessoa de baixa estatura, magra e sedentária. Ou seja, o exame de sangue não capta o início do problema nem as diferenças individuais.

E na minha experiência terapêutica, o que vejo são pessoas tendo resultados incríveis, em diversos problemas distintos de saúde, simplesmente com a correção da dieta e/ou suplementação de iodo. E digo mais, todos os meus pacientes que não tinham problema anatômico da tireoide, mesmo que estivessem já fazendo reposição hormonal, com simples mudanças de hábito em no máximo 2 meses não precisavam mais da reposição hormonal de T4.

Infelizmente não posso passar tratamento por aqui, cada pessoa é diferente, se você tem hipotireoidismo ou conhece alguém que tenha, procure um profissional que antes de lhe propor a reposição hormonal, proponha a mudança de hábitos alimentares. Não se preocupe, antes de ser diagnosticada com hipotireoidismo você muito provavelmente já viveu muito tempo assim, você tem tempo pra se adaptar à nova dieta.

Mas vou deixar aqui algumas sugestões naturais para suprir essa deficiência de iodo seja como prevenção ou tratamento:

  • Aumentar o consumo de frutos do mar. Como já disse, frutos do mar são ricos em iodo (e uma delícia);
  • Ingerir mais algas marinhas. Sim, não é comum na dieta do brasileiro mas algas marinhas fazem parte do grupo “frutos do mar” e são talvez, o alimento natural mais rico em iodo que há. E hoje em dia ficou muito fácil pois é possível encontrar algas em comprimidos como spirulina e chlorella (dentre outras) em lojas de produtos naturais e de suplementos;
  • Ingerir alimentos orgânicos. Bem ou mal ainda há algum iodo no nosso solo e a produção de alimentos orgânicos, em teoria, mantém o ciclo natural mais fechado, o que tende a aumentar a quantidade de nutrientes nos alimentos.

Além dessas soluções naturais, que qualquer um pode fazer, existe também a opção do Lugol, que é basicamente uma solução com concentração de iodo mais elevada. Uma gota de uma solução de lugol 5%, por exemplo, é suficiente pra suprir a necessidade diária de iodo de um adulto. No entanto, como tudo, a diferença entre remédio e veneno é a dose! Então não se automedique. Procure acompanhamento de um profissional capacitado. Apesar da solução de lugol 5% possuir um índice baixíssimo de reações adversas, sempre que você começar qualquer tratamento, fique atento às mudanças.

Lembre-se: tudo em excesso faz mal.

E o que excede pra mim, pode não exceder pra você. Somos todos diferentes. Portanto, procure um terapeuta que entenda isso.

Coma bem que a saúde vem.

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